Outubro 05 2014 0Comentários
GREEN

Uma vegana em Nova Iorque

Este ano tenho tido a oportunidade de passar algum tempo fora e experimentar ser vegana fora do conforto de casa e do que estou habituada.

Após passar uns dias nos Estados Unidos, mais propriamente em Nova Iorque, posso dizer que não existe lugar como a nossa casa. Aqui o veganismo é muito fácil e em qualquer parte encontramos doces, comida rápida e não só.

Como fiquei em casa de familiares pouco antes de viajar para Nova Iorque, achei que seria bom fazer algumas compras online, para que quando chegasse não tivesse surpresas ou que precisasse de viver de saladas. Contactei um grupo vegano local que me informou que em Nova Iorque é facílimo encontrar produtos veganos e que seria desnecessário fazer a encomenda.
IMG_2968No primeiro dia, ou melhor dizendo, noite, uma vez que cheguei já o sol se tinha posto fui a um restaurante mexicano em New Rochelle, localidade onde iria ficar. A conversação não podia ser mais simples, pela lista perguntei o que tinham que não tivesse carne, peixe, queijo ou ovo. O empregado do restaurante sugeriu que experimentasse os nachos, molho picante e guacamole como entrada e como prato principal uma salada de feijão. Para preparar o guacamole trouxeram uma pequena mesa móvel para junto de nós, onde tinha uma porção de vegetais e frutas frescas. Tudo foi preparado a nossa beira num espectáculo de cor que resultou num festim de sabor. A salada de feijão que eu esperava ser um pequeno prato, uma vez que não se encontrava nos pratos principais, acabou por ser uma flor, com diferentes camadas, a primeira de feijão preto e a cobrir uma porção de vegetais frescos, tudo isto no interior de uma flor de fajita cozinhada com farinha de milho.

A primeira noite estava a terminar e eu já pensava no meu objectivo do dia seguinte, visitar a baby cakes, uma pastelaria vegana e sem glúten que já sigo há algum tempo.

No dia seguinte à expectativa era alta, mas a tarefa de encontrar a baby cakes revelou-se infrutífera por falta de planeamento, Nova Iorque é uma cidade muito grande, mas felizmente há sempre opções. Após caminhar algum tempo e uma vez que tinha saído de casa bem cedo, a fome já começava a apertar e a vontade de experimentar novos sabores aumentava, ia passando por Times Square e enquanto olhava a minha volta via imensas carrinhas de comida que servem todo o tipo de comida, sumos verdes, sushi, fallafel, frutas, entre outras que não apresentam qualquer tipo de opção vegana. Ao passar numa rua dou de frente com a The Green Radish, uma carrinha de alimentação vegana e biológica. Esta carrinha é especialmente popular pelo hambúrguer de feijão preto, que foi o que pedi, acompanhado de um chá de menta e gengibre. A espera foi curta e o hambúrguer foi entregue e ofereceram um donut vegano. Esta carrinha não está sempre no mesmo local, para saber onde vão estar é sempre melhor confirmar na página de facebook.IMG_2985

Sentada em plena Brodway a saborear o hambúrguer vegano de feijão preto, recheado de cebola e muito abacate, ainda consegui provar uma fallafel e húmus que é muito popular é fácil de encontrar em qualquer parte.IMG_2990

Durante a tarde ainda deu para experimentar um sumo verde de uma barraquinha de rua.

No dia seguinte já com o roteiro para a baby cakes bem planeado, saio de casa cedo. Uma vez mais apanho o comboio com destino a grand central station. A baby cakes fica em brome street, perto do soho. Há medida que me aproximava da baby cakes a expectativa ia aumentando. Há muito que sigo a loja e os próprios livros são lindíssimos, o que me deixou extremamente desiludida. A loja é pequena, desorganizada e um pouco suja. Tinha alguns bolos expostos e umas cadeiras altas encostadas a parede. Toda a ilusão caiu por terra. Como não queria fazer a viagem em vão, comprei um par de cupcakes, donuts e bolinhos de coco que levaria para partilhar a noite, pedi um café com leite de amêndoa. Entregam o café e a embalagem de leite de amêndoa para que possamos por a dose que queremos.

IMG_3048

Saiu da loja desiludida e com receio das próximas experiências veganas que tinha planeado, neste momento já estava com medo de visitar outro restaurante vegano. A chuva miúda que cai parece tornar o ambiente mais triste.

Parto em direcção ao soho é uma vez mais com a fome a apertar começo a ver que opções tenho, uma vez mais em cada lugar há uma opção vegana mas estou com vontade de arriscar na vegan junk food, paro num local com um pequeno átrio, onde servem um sem fim de hambúrgueres e lá está a palavra Vegan bem saliente. Peço o hambúrguer vegano é uma limonada. O hambúrguer é servido acompanhado de batata frita caseira. Mais uma vez o hambúrguer é de feijão e vem acompanhado de muita salada.IMG_3052

Consegui esquecer o flop da manhã e sigo aproveitando as vistas urbanas e o multiculturalismo da cidade.

Ao voltar para a estação de metro em union square encontro gigante Whole Foods. Aproveito para visitar e talvez para abastecer o frigorífico de casa com produtos veganos para tentar poupar uns dólares no dia seguinte, levando talvez umas sandes para a cidade. O whole foods em union square (o único que visitei) tem três pisos. O piso -1 tem os produtos frescos, uma grande variedade de legumes, frutas e vegetais. Podemos não só comprar os ramos de legumes como também existe a opção de comprar os legumes preparados e cortados ao peso. Esta secção está muito bem organizada e é uma perdição pela variedade de ingredientes que nos apresentam. Todos os produtos whole foods são biológicos e locais. Avanço pelos corredores e vou encontrando um sem fim de produtos com a certificação vegana, desde o simples tofu, até um sem fim de refeições pré cozinhadas veganas. A variedade de produtos faz-me pensar na facilidade em ser vegano cá, temos todo o tipo de queijos, todo o tipo de tempeh, variedades de tofu que um ano seria pouco para experimentar, refeições pré cozinhadas, desde as que precisam de forno até as que simplesmente podemos colocar no microondas, kale Chips, frutos secos, súper alimentos, barras energéticas, batidos, sumos, uma quantidade ridícula de tipos de arroz. O piso -1 está a tornar-se numa verdadeira aventura para quem quer apenas levar uns produtos o jantar e preparar umas sandes para o dia seguinte. Opto por uns produtos gardein – buffalo wings e crispy chiken – é um queijo fatiado daiya para saber se ele derrete e se é tão delicioso como as fotografias o acusam. Enquanto vegana tenho uma grande curiosidade e receio em experimentar produtos análogos a carne, uma vez que não tenho qualquer curiosidade em experimentar texturas e sabores que me lembrem a carne. A curiosidade do queijo vegano surge pela dificuldade de encontrar queijos veganos em Portugal que derretam facilmente sem precisar de adicionar natas ou assim. Assim que cheguei a casa preparei as embalagens de gardein e de uma mistura de arroz com feijão que tinha trazido da whole foods. A sobremesa seriam os bolos baby cakes que resistiram todo o dia na mochila. Os meus receios foram desmistificados, o sabor das buffalo wings e crispy chiken não se assemelha a carne, apenas a textura, que resulta numa pasta de proteína vegetal muito prensada e que ao cortar pode deixar alguns filamentos desordenados. Não há que ter receio é apenas o nome que tem chiken, o sabor nenhum, o que me deixou muito feliz, pois se tivesse experimentado de relance o sabor animal acredito que teria sido uma compra em vão. Deixei de parte os sabores de filete de peixe que apesar de estarem disponíveis, não quis experimentar, o simples sabor de alga já me traz muitas recordações a peixe.IMG_3079

As fatias de queijo daiya que tinha trazido teriam que aguardar uma tosta de pequeno-almoço, que chegou no dia seguinte. Qual não foi a minha surpresa ao ver que basta apenas alguns segundos numa superfície quente para o daiya cheese dar um ar de sua graça e começar a derreter. Deste queijo só posso falar maravilhas. Derrete, o que nos dá aquela sensação de conforto, mas ao contrário do queijo de origem animal, o daiya cheese é extremamente suave, não fica aquela sensação de chiclete que acontece com o queijo animal quando derretido. A suavidade do daiya faz-me pensar nas saudades que vou ter quando voltar a Portugal uma vez que por enquanto não se encontra disponível nas nossas lojas.IMG_3197

Durante o dia, a minha curiosidade foca-se numas farmácias enormes que vendem desde medicamentos de prescrição médica, medicamentos livres, maquilhagem e alimentação. Entro numa destas lojas perto emde wall street para comprar uns adesivos para cobrir o pé que já dava sinal de falhanço (em nova york andasse muito, as ruas são planas e perdemos a noção de espaço, tudo parece perto, até começarmos a andar e quando nos apercebemos já passou uma hora e o edifício não se encontra perto), na farmácia encontro um balcão com alguns doces frescos, em embalagens individuais, prontos a consumir, olho de relance, pois não sei se há algum produto vegano e qual não é o meu espanto quando vejo não uma, mas várias opções veganas. Vá lá, está cadeia está em todo o lado, mas daí a ser tão fácil encontrar comida vegana mesmo nestes centros? Compro uma caixa de marshmallows veganos e saio ansiosa para experimentar o sabor e a textura. Estes marshmallows veganos são mais consistentes dos que estava habituada, tem uma pasta de amêndoa e parece quase um doce e acho que são melhores do que me lembro de marshmallow.IMG_3123

Esta viagem foodie estava a tornar-se muito complicada, as opções são tantas que quase não consigo escolher.

IMG_3109Chegou mais uma vez o dia de experimentar um restaurante que sigo, o beyond sushi. O beyond sushi é um restaurante de sushi vegano, onde variam também o arroz branco. O arroz é integral ou uma mistura arroz selvagem e arroz integral, todos os produtos são orgânicos. A dificuldade no beyond sushi é escolher, uma vez que compramos um rolo que equivale a 8 peças, que quando cortadas e colocadas com os “toppings” resulta num prato muito atractivo, apetecível e colorido.

Peço um spicy mang, mighty mushroom, sweet tree e um wrap de arroz. Que delicia, o picante no rolo spicy mang é suave e funde-se nos sabores todos, alternando com o mighty mushroom que tem o sabor intenso de cogumelos shitaque. Todos os rolinhos são deliciosos e desaparecem da mesa rapidamente. O mesmo acontece com o wrap, com um sabor agridoce. O beyond sushi é um lugar a visitar, para os curiosos de sushi e para quem ainda não encontrou um sabor de sushi que agrade.IMG_3108

New rochelle é uma pequena localidade nos arredores de Nova Iorque, a cerca de 30 minutos de comboio da cidade, não seria o local para encontrar um restaurante vegano, uma vez que todos os que pesquisei se encontravam a poucos minutos do centro. Mas esta cidade não pára de nos surpreender e há um restaurante lindíssimo, com uma decoração jamaicana com a cozinha da autoria do chef Jolo’s. A curiosidade foi tanta é a vontade de experimentar o famoso Mac & Cheese falou mais alto que precisei de ir ao restaurante. O Mac & Cheese estava esgotado, mas havia uma variedade muito grande de pratos para escolher. Optei por experimentar umas crispy wings e prato um caril. A bebida, uma ginger beer, uma bebida picante e extremamente refrescante preparada pelo chef Jolo’s, com gengibre, agave e água, para os mais audazes. Todos os pratos tinham um toque exótico e picante, mas não consegui deixar de reparar no sabor dos produtos gardein que foram utilizados e que regra geral fazem parte do menu de muitos restaurantes veganos e não veganos.IMG_3369

Apesar de não ter ido apenas a restaurantes veganos, a comunicação é sempre fácil. Numa situação em que estava a pedir um prato vegano, as pessoas ou perguntavam o que era, o que se tornava fácil explicar, uma vez que eles podem não saber o que é, mas tem uma política de alergias muito forte e se perceberem que não queremos algum ingrediente no nosso prato, essa política entra logo em acção. Inquiri uma rapariga que se tornou muito prestável, ao trazer a lista interna de pratos sem produtos de origem animal. Ainda perguntei se havia a possibilidade de eles em alguma fase de preparação terem estado em contacto com outros, a resposta foi não, para estar na lista de produtos não poderiam em fase alguma ter estado em contacto com os outros produtos.

É fácil ser vegano em Nova Iorque, o problema é mesmo o preço, aqui tudo é caro e no final há a política de deixar gorjeta de valor igual ou superior a 15%. Existem mesmo restaurantes nos quais os funcionários apenas recebem o valor das gorjetas e nesses locais eles vão fazer de tudo para nós deixarem felizes.

Esta foi a minha experiência foodie num país de abundância. Levo muitos sabores na memória, mas o que me pareceu foi que a alimentação vegana é vivida de produtos processados, não existe muito a cultura que em Portugal ainda existe de preparar os alimentos da raiz, misturando o que a terra nos dá. Levo alguns sabores, mas também já tenho saudades dos meus jantares simples cozinhados com ingredientes naturais, demoram mais tempo, mas o sabor e os benefícios são imbatíveis.

Quando se compra num supermercado americano, há uma nota muito importante a ter em conta, mesmo que esteja marcado como dairy free ou casein free, muitas vezes há um ingrediente muito utilizado, o whey ou em português, proteína de leite. O whey é usado em muitos produtos vegetarianos e não sei o porquê de não estar identificado como dairy (laticínios).

loja vegetariana

Escreva uma resposta ou comentário