Hoje, 16 de outubro, assinala-se o Dia Mundial da Alimentação. O tema deste ano, definido pela FAO, é “Inovar hoje para nutrir o amanhã”. A ideia é combinar soluções de vanguarda com conhecimentos tradicionais, para garantir uma alimentação diversificada, saudável e segura, protegendo o planeta para as gerações futuras.
Fui ver o que a própria FAO publica sobre terra, água e oceanos. Uma nota importante: a FAO não defende o veganismo. Mas os números que ela divulga ajudam a perceber porque é que a alimentação vegetal merece estar nesta conversa.
Terra: alimentar animais ou alimentar pessoas?
Segundo o relatório Livestock’s Long Shadow (FAO, 2006), o pastoreio ocupa o equivalente a 26% da superfície terrestre sem gelo, e as culturas para alimentação animal ocupam 33% das terras aráveis. Somando tudo, a produção animal representa 70% de toda a terra agrícola.
Uma publicação posterior da FAO vai mais longe: 40% de todas as culturas produzidas servem para alimentar animais e, se fossem usadas diretamente para consumo humano, haveria terra arável suficiente para alimentar 9 mil milhões de pessoas em 2050. Convém dizer que grande parte das pastagens não serve para cultivar alimentos, por isso a conta não é tão simples. Mas a parte das culturas que vai para a ração é um desperdício de potencial.
Os dados da Our World in Data, baseados em estatísticas da FAO, resumem bem o desequilíbrio: a pecuária ocupa 77% da terra agrícola mundial, mas fornece apenas 18% das calorias e 37% das proteínas.
Água: a pegada escondida na ração
Quando se fala de água e carne, pensa-se na água que os animais bebem. Mas o grosso está noutro sítio. A FAO apontava que a pecuária representa mais de 8% do uso humano de água a nível global, sobretudo na irrigação das culturas para ração. O mesmo relatório considerava-a provavelmente a maior fonte setorial de poluição da água.
Um estudo mais recente, de 2020, que cruza estatísticas da FAO com modelos de cultivo, estimou que 4.387 km³ de água azul e verde por ano são usados na produção de ração, cerca de 41% de toda a água usada na agricultura. Esta conta inclui a água da chuva (a “água verde”), mas mostra bem onde está o peso. Cada refeição de origem animal carrega a água de todas as colheitas que o animal consumiu antes.

Oceanos: a aquacultura não é a solução limpa que parece
Com a pesca excessiva, a aquacultura passou a ser vista como a saída. O relatório da FAO O Estado Mundial das Pescas e da Aquacultura 2024 mostra que em 2022 a aquacultura (51%) superou pela primeira vez a pesca na produção de animais aquáticos. Em simultâneo, a percentagem de unidades populacionais de peixes sobreexploradas subiu de 35,4% para 37,7%. A FAO projeta que a aquacultura chegue a 54% da produção até 2032.
Só que criar peixe em grande escala traz problemas:
Peixe selvagem para alimentar peixe de criação. Espécies como o salmão, o robalo e o camarão exigem grandes quantidades de farinha e óleo de peixe feitos a partir de peixe capturado no mar. As diretrizes técnicas da FAO alertam para os impactos ambientais do uso de peixe selvagem como ração, incluindo riscos de contaminação e transmissão de doenças.
Poluição e doenças. Organizações de pesca artesanal, num comunicado dirigido à própria FAO, descrevem eutrofização, proliferação de algas nocivas, fugas de peixes de criação para o meio natural, risco de epidemias e poluição por químicos, incluindo antibióticos.
Antibióticos e resistências. Uma revisão científica sobre aquacultura marinha alerta que o uso excessivo de antibióticos pode selecionar bactérias resistentes.
Fome noutros sítios. Segundo as mesmas organizações, mais de meio milhão de toneladas de peixe pelágico da África Ocidental, que poderiam alimentar mais de 33 milhões de pessoas, são transformadas em farinha e óleo de peixe para alimentar peixes de criação e outros animais.
E há uma pergunta que, para mim, vem antes de todas as outras: os peixes são animais sencientes. Mesmo que um dia a aquacultura fosse “limpa”, continuaria a ser uma questão de respeito.
Inovar é também voltar ao essencial
O tema da FAO fala de juntar inovação e conhecimento tradicional. Leguminosas, cereais, frutos secos, sementes e hortícolas são esse conhecimento tradicional, e hoje há mais opções vegetais, mais acessíveis e mais saborosas do que nunca. A cozinha portuguesa já está cheia delas.
O que podes fazer esta semana:
- Experimenta substituir uma refeição de origem animal por uma vegetal (tens o meu guia para começar).
- Planeia as compras e evita o desperdício alimentar.
- Dá preferência a produtos locais e da época.
- Partilha este artigo com alguém que ainda ache que ser vegan é só uma “opinião”.
E se quiseres receitas simples para começar, subscreve a newsletter e recebe o meu e-book gratuito.
Fontes: FAO, Livestock’s Long Shadow (2006); FAO, Livestock and Landscapes (fao.org/4/ar591e); FAO, The State of World Fisheries and Aquaculture 2024; FAO, Technical Guidelines for Responsible Fisheries (uso de peixe selvagem na ração); Our World in Data, “Half of the world’s habitable land is used for agriculture”; Heinke et al. (2020), Water Resources Research; ICSF/CFFA, comunicado conjunto para o COFI 37.
