Outubro 09 2026 0Comentários

Touradas são património? A reflexão sobre um retrocesso

Esta semana, o Património Cultural abriu a consulta pública para inscrever as “corridas de toiros em Portugal” no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. O anúncio saiu em Diário da República, com a frieza burocrática habitual, como se estivéssemos a falar de uma receita de bolo ou de uma dança de roda.

Fiquei a olhar para a notícia uns minutos, sem saber bem o que sentir primeiro: raiva, cansaço ou vergonha.

Cinco anos para chegar a isto

O processo foi aberto há mais de cinco anos, por iniciativa da Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal. Em 2022, a então Direção-Geral do Património Cultural pediu que o pedido fosse melhorado. Ou seja, o dossiê foi reescrito e polido até ter a apresentação certa. E agora temos 30 dias de consulta pública e mais 120 para uma decisão final.

Há uma ironia amarga nisto. Quando se trata de proteger animais, o Estado costuma ser lento, hesitante e cheio de “é preciso estudar melhor”. Quando se trata de consagrar uma prática que os mata em público, arranja-se paciência para cinco anos de processo.

A linguagem que embeleza

O texto da plataforma MatrizPCI diz que a tourada é a “expressão plena da tauromaquia profissional”, que se manifesta “num conjunto de procedimentos codificados” e decorre em recintos “devidamente autorizados e fiscalizados”. Há ali cavaleiros tauromáquicos, forcados, novilheiros, matadores, alternativas e escalões máximos de categorias profissionais.

Uma pessoa lê aquilo e quase se esquece do essencial: no centro de tudo está um animal que é espetado, cansado até à exaustão, humilhado e, em muitos casos, morto por entretenimento. Todo aquele vocabulário solene serve para tapar o óbvio. Chamar “procedimentos codificados” a um ritual de tortura é o mesmo que chamar “protocolo de cortesia” a uma tareia bem organizada. Codificar a violência não a torna menos violenta. Só a torna mais respeitável aos olhos de quem não quer olhar.

O que é, afinal, património?

Sempre aprendi que o património imaterial é aquilo que nos orgulha, que nos define, que queremos legar a quem vem depois: um canto, uma língua, um ofício, uma festa que junta a comunidade. É memória viva, mas é também escolha. Cada geração decide o que quer guardar e o que prefere deixar para trás.

Foi assim que deixámos para trás muita coisa que também já foi “tradição”. O espetáculo público do sofrimento alheio já foi normal, aceite e aplaudido, e aprendemos, a custo, a chamar-lhe pelo nome. O progresso moral é isso mesmo: chega o dia em que olhamos para uma prática antiga e dizemos “isto não somos nós, ou pelo menos não queremos continuar a ser”.

Inscrever as touradas como património é fazer exatamente o contrário. É pegar numa prática que a sociedade está, devagar, a abandonar e carimbá-la como algo de valor, algo a preservar. É dizer às gerações futuras que o sofrimento de um ser senciente, para divertimento do público, merece ser guardado como um tesouro.

Os números não mentem (e dizem o contrário do que se pretende)

Os próprios dados citados na notícia desmontam a narrativa do “orgulho nacional”. Em 2025 realizaram-se 147 eventos, em 63 concelhos, e a própria IGAC reconhece uma tendência de diminuição ao longo dos últimos anos. É verdade que houve uma subida de público, de 244 mil para cerca de 300 mil pessoas, mas num país com mais de dez milhões de habitantes isso fica muito longe de ser uma expressão cultural maioritária.

Estamos perante uma atividade em declínio, que vive de subsídios históricos, de hábito e de lóbi. E, quando algo não sobrevive pela adesão genuína das pessoas, recorre-se ao último recurso: protegê-lo por decreto. Não é preservação cultural, é respiração assistida.

Há quem diga que isto é só uma “inscrição num inventário”, sem consequências práticas. Não acredito. As palavras oficiais pesam. Quando o Estado classifica algo como património, está a dar-lhe legitimidade, a protegê-lo de críticas futuras e a fornecer um argumento a quem o quiser defender: “Mas isto é património cultural reconhecido!”

E depois há as crianças. Neste mesmo contexto, o Bloco de Esquerda voltou a propor a proibição da assistência de menores a estes espetáculos. Faz todo o sentido. Que mensagem passamos a uma criança sentada numa bancada, a ver um animal sangrar enquanto à volta toda a gente aplaude? Que a dor é espetáculo? Que a empatia se desliga quando há tradição envolvida?

Partidos como o PAN e o Livre já defenderam, nos seus programas, a abolição destas práticas, e o PAN foi mais longe ao pedir que saíssem da lista do património imaterial. É esse o caminho de uma sociedade que quer evoluir. O que está a acontecer é o oposto.

Uma oportunidade que não podemos desperdiçar

Se há coisa positiva nesta notícia, é a existência de uma consulta pública. São 30 dias em que qualquer pessoa pode manifestar a sua posição. Não é muito tempo, mas chega para nos fazermos ouvir.

Não nos podemos dar ao luxo de achar que “alguém vai tratar disso”. O silêncio, nestas coisas, é lido como aceitação. Se acreditamos que a crueldade não é cultura, que o sofrimento animal não é património e que um país moderno não faz inventário do que devia fazer desaparecer, então é agora que temos de o dizer, por escrito e em voz alta.

Porque, no fim, a pergunta que importa não é o que herdámos. É o que escolhemos levar connosco para o futuro. E recuso-me a acreditar que o melhor que temos para deixar aos nossos filhos seja uma arena, um animal encurralado e um público a bater palmas.

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