Outubro 01 2026 0Comentários

Esta quinta cria cães para consumo humano! E não consigo deixar de a seguir!

Se há uns anos me dissessem que um dos meus instagram’s favoritos ia ser uma quinta de criação de cães para consumo humano, eu ia rir muito! Mas apesar de ser absurdo, não consigo parar de seguir a Elwood’s Organic Meat Farm e adoro!

Chama-se Elwood’s Organic Dog Meat e apresenta-se como uma exploração dedicada à criação de cães para consumo humano. E eles têm muitas raças com diferentes especificidades e cada um com diferentes tipos de receitas! Lá podes encontrar raças como labrador, pug, chihuahua, corgi, spaniel e dachshund e os animais são criados ao ar livre, de forma sustentável, sem antibióticos e com um abate humanitário.

Mas se não gostas ou não comes carne, a Elwood’s Organic Dog Meat oferece alternativas vegetarianas, entre as quais o queijo produzido a partir do leite de golden retriever.

Se esta descrição te causa desconforto, não te preocupes, é exactamente essa a intenção por trás da Elwood’s Dog Meat Farm (Quinta de Carne de Cão da Elwood).

A Elwood’s Organic Dog Meat não existe, ou melhor, existe mas só no Instagram e no seu site. A ideia surgiu da activista Molly Elwood, que já tinha experiência profissional na área da publicidade e decidiu usar a ironia, assim como as ferramentas de marketing para provocar desconforto e uma pergunta bastante simples:

Porque é que determinados animais são vistos como companhia e outros como comida?

Uma ideia que começou com um autocolante e muito incomodo.

O projecto nasceu em 2021, quando Molly Elwood, vegan há cinco anos, procurava uma forma criativa de falar sobre os animais utilizados na industria alimentar.

A primeira ideia foi relativamente simples: criar um autocolante para colocar num carro, semelhante aos anúncios comerciais que vemos habitualmente em veículos de empresas ou profissionais.

A ideia acabou por crescer. Primeiro surgiu um site, depois as redes sociais e, pouco a pouco, aquilo que começou como uma brincadeira conceptual transformou-se numa campanha de sensibilização que chamou a atenção de milhares de pessoas.

O mais interessante é que foi a própria experiência de Elwood que ajudou a dar forma à mensagem.

Antes de ser vegan, Molly, procurava comprar produtos de origem animal que considerava provenientes de sistemas com melhores condições de bem-estar. Acreditava que escolher produtos com determinadas certificações ou referências a práticas mais cuidadosas fazia diferença.

Segundo Elwood, a sensação de estar a fazer uma escolha “mais humana” acabou por lhe dar uma espécie de tranquilidade e permitiu-lhe adiar durante algum tempo a decisão de deixar de consumir produtos de origem animal.

É aqui que surge um dos conceitos centrais do projecto: humanewashing.

Quando o marketing torna o consumo mais confortável

É precisamente aqui que começa a surgir uma questão mais difícil: o que é que, afinal, significa “bem-estar animal”?

Em Portugal, já foram denunciadas situações de maus-tratos em explorações que tinham certificações de bem-estar animal. Estes casos não significam que todas as certificações sejam falsas ou que todas as explorações certificadas funcionem da mesma forma. Mostram, no entanto, que um selo, por si só, não nos permite conhecer toda a realidade vivida pelos animais.

E é aqui que entra o conceito de humanewashing.

Tal como acontece com o greenwashing, a ideia passa pela utilização de determinadas palavras, imagens, certificações ou mensagens que ajudam a construir uma percepção mais positiva de um produto ou sistema de produção.

Quando vemos expressões como “bem-estar animal”, “criado ao ar livre”, “sustentável” ou “criado de forma humanitária”, é natural que imaginemos um animal que viveu uma vida significativamente diferente daquela que associamos à produção intensiva.

Dois animais, duas reações diferentes.

Imagine-se agora que, em vez de cães, estamos a falar de porcos, galinhas, vacas ou ovelhas.

A descrição de uma exploração intensiva pode deixar de provocar a mesma reacção emocional quando o animal em causa é culturalmente considerado alimento.

É precisamente nesse desconforto que a Elwood’s Organic Dog Meat trabalha.

Ao colocar cães — animais que grande parte da sociedade ocidental considera companheiros e membros da família — no lugar habitualmente ocupado por outros animais de produção, o projecto altera o nosso ponto de vista.

De repente, palavras como “carne”, “criação”, “produção” ou “abate humanitário” passam a soar de outra forma.

E talvez essa seja a parte mais interessante da campanha.

Não pretende apenas convencer-nos de que comer cães é errado. A pergunta é bastante mais incómoda:

Se a nossa relação com um animal muda completamente a forma como encaramos o seu sofrimento, até que ponto as nossas escolhas alimentares são determinadas pelos animais que aprendemos a amar e pelos animais que aprendemos a comer?

É uma pergunta que não tem de ser respondida da mesma maneira por toda a gente.

Mas é difícil olhar para a Elwood’s Organic Dog Meat sem, pelo menos por alguns segundos, imaginar a mesma história com os animais que habitualmente encontramos no nosso prato.

E perceber que, quando mudamos apenas o animal da história, a nossa reacção também pode mudar radicalmente.

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