Novembro 01 2016 0Comentários
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História de uma carnista que se tornou vegana

Hoje dia 1 de novembro é celebrado o dia de todos os santos e no mesmo dia celebramos o dia mundial do veganismo. Por isso quero partilhar com vocês a história na primeira pessoa de uma pessoa que toda a vida comeu carne, sem nunca se questionar da sua origem, até que um dia isso mudou e a carne deixou de ser considerada comida no prato para se tornar os restos mortais de um animal que tinha vida e vontade própria, que sentiu muito medo e sofreu durante a sua vida e morte. O texto original pode ser lido em inglês no site Vegan Austrália.

Faith sempre comeu carne, mas um acontecimento mudou a sua visão e perspectiva sobre os animais que são criados para consumo humano. Faith tornou-se vegana depois de ter trabalhado um dia no matadouro. Esta é a história que Faith conta na primeira pessoa, no site Vegan Austrália.

1 Noite
“Oh meu Deus, lamento muito ter que enviar esta mensagem, mas sempre comi carne e laticínios sem nunca me questionar sobre a sua origem. Ao fim de dois anos de desemprego, chega o alivio de finalmente conseguir um emprego. Mantive-o apenas um dia. Não consegui suportar. É a horrorífico e horrível, nunca testemunhei nada assim em toda a minha vida. E supostamente, este seria um abate “humano”.

Sexta-feira voltei a casa lavada em lágrimas. E o cheiro! O cheiro da morte, ainda o consigo sentir! Não consigo dormir nem afastar aquelas imagens da minha cabeça. Nunca mais quero tocar em carne outra vez. Nunca pensei que seria daquela maneira. Nunca experimentei outro tipo de dieta ou mudança de estilo de vida porque fui criada pelos meus avós numa leitaria. Hoje foi horrível, passei a última noite muito abalada e precisei de tomar seis duches, mas o cheiro do sangue e da morte ainda está muito presente. Não sei como vou superar. Tenho dois filhos e sei que nunca mais iremos comprar carne. Quero experimentar o veganismo. Só de pensar em comprar carne cozinhada deixa-me doente. Apenas suportei um dia neste trabalho. A primeira semana seria apenas para observar e eu não sabia.

Sinto-me parva, porque alguns dos meus amigos se tornaram veganos e eu achava-os doidos e que estavam a seguir uma tendência hippie. Agora sinto-me mal por julgar as suas decisões. Nunca pensei que fosse assim tão horrorífico. Achava que os animais eram atordoados e a morte instantânea. Mas isso não acontece! Eles estão vivos e berram. E mesmo depois da morte, o sangue. Oh meus Deus, acho que nunca mais conseguirei passar pela secção de carne ou de um talho outra vez.”

2 Noite
“Esta noite estou aqui sentada, e as imagens ainda vagueiam no meu pensamento. Depois de tanto tempo sem emprego, eu estava radiante por conseguir trabalho. Acreditava em tudo o que via. É “humano” “os animais não sentem” Enquanto conduzia, passei pelo cercado onde estavam as vacas, onde elas calmamente comiam erva e pareceu-me normal. Quando entrei no matadouro, senti um arrepio ao aperceber-me do porque delas estarem naquele campo. Comecei a visite pelo talho. Pareceu-me um talho normal e por isso não me incomodou.

A visita continuou e fui para fora, onde pude acariciar uma das vacas. Já não estava tão perto de uma vaca desde a leitaria dos meus avós. Visitei a sala de embaçamento onde conheci outros trabalhadores e um deles disse-me “coloca isto e vai ver como acontece”. Deram-me botas e um avental de plástico e caminhei através de portas enormes, onde alinhavam as vacas e se ouvia o mugir, mas um MOOO diferente. Acredito que estariam com medo. Algumas vacas urinavam e elas fazem isso quando tem medo. Passei mais algumas portas e alertaram-me que não ia gostar do que ia ver, mas que faz parte da vida. Parte da agricultura, estas vacas são criadas com este propósito. Elas não têm outro propósito. Saiu uma vaca e o portão desceu prendendo a sua cabeça. Começou a lutar para se libertar e eu senti-me mal, mas estava convicta que faz parte da vida, era este o seu propósito.

Passaram por mim com um objeto que se assemelhava a uma pequena haste, era o atordoador. A vaca caiu ao chão instantaneamente e eu achei que já estaria morta. Apenas com um disparo. Mas não estava. A vaca tremia e mexia-se, disseram-me que estaria em morte cerebral e não sentiria dor. Após um minuto prenderam-lhe as pernas e ela tentou erguer-se. Isto não são reflexos. Caiu e tentou levantar-se de novo, mas entretanto ergueram-na pelas pernas de trás, enquanto outra vaca era encaminhada para o bloqueador de cabeça. Perguntei se estaria morta e disseram-me que sim, mas os seus olhos estavam abertos e por breves momentos fizemos contacto visual. A vaca seguiu para uma área de azulejos brancos com uma drenagem no chão. Um homem disse-me “nunca terás de fazer este trabalho, apenas não vomites neste chão, ok?” Ele continuou e enquanto a vaca continuava a lutar para se soltar, ele cortou-lhe o pescoço e ela continuou a lutar. Gritei! Ele empurrou a sua cabeça para trás e para a frente e o sangue jorrava e salpicava as paredes e escorria pelo seu pescoço. A vaca continuou a mugir, mas o som tornou-se cada vez mais suave e a sua luta mais lenta, até que terminou e ficou parada.

Vaca, minutos antes de ser morta

Olhei para o chão. Estava a escassos metros e as minhas botas estavam vermelho vivo, cobertas de sangue. Nunca tinha visto tanto sangue e não sabia que o sangue tinha cheiro. Mas tem. Tem um cheiro metálico e a morte e esta vaca que estava a ser esquartejada do outro lado da sala, ainda sangrava, enquanto a seguinte entrava, exatamente da mesma maneira, a lutar e a mugir, mas eles dizem que são apenas reflexos. A vaca está em morte cerebral por causa do atordoamento. Não posso acreditar no que me dizem. Fiquei lá e assisti à morte de sete vacas, mas não consigo cooperar. Na quarta morte precisei de sair e vomitei. Para neutralizar o cheiro disseram-me para usar Vicks no nariz e que iria superar. Pensei nos meus filhos e que agora teria um emprego, por isso voltei para dentro e assisti a mais três mortes.

Quando saí retirei as botas e avental, passei pelas vacas ainda vivas e voltei para o talho, onde os outros trabalhadores tentaram confortar-me e sugeriram que talvez tivesse sido cedo de mais para assistir ao abate, por isso fiquei por lá. A carne nunca me tinha incomodado, já namorei com um talhante. Mas ver aquela carne fez-me ver as vacas e o sangue e o cheiro do sangue e o cheiro metálico da morte. O meu namorado hoje disse-me que o sangue não tem cheiro. Apenas lhe perguntei se ele já tinha estado ao pé de um chão inundado de sangue, litros e litros de sangue que se acumulam aos teus pés? Não? Ele tem cheiro. Avisei que não voltaria e deram-me 75 dólares, apesar de apenas ter estado lá.

Nunca senti tanta dor por outro ser como senti por aquelas vacas. O seu efeito terá repercussões em mim que nunca esquecerei. Enquanto vos escrevo, continuo a chorar e escrevo apenas com a esperança que esta experiência me tenha mudado. Já falei com três dos meus amigos veganos e já pedi desculpa por criticar a a decisão que eles tomaram quando decidiram tornar-se veganos. Eu, por ser uma carniça agressiva e com muitas opiniões chamei-lhes hippies e que apenas se queriam destacar. Sinto culpa do que fui e agradecida por me aceitarem e estarem dispostos a ajudar-me nesta nova etapa. Uma coisa que eu sei é que nunca mais tocarei em carne.Os laticínios serão uma batalha, mas farei os possíveis por eliminar os produtos animais a 100%.

E muito importante, nunca esquecerei esta sexta-feira, cada detalhe, cada som, cada cheiro ficará para sempre gravado na minha cabeça, uma vez que me mudou. Sinto-me doente pela mentira em que vivi, convencida que os abates eram humanos e que o atordoador as mata. Agora que descobri que não acontece, uma vez que vi por mim mesma. Há dois tipos de arma, o parafuso e o atordoador. O atordoador adormece-as mas elas acordam de imediato. Tenho a certeza que é o que eles utilizam naquele local. Sinto-me doente e sei que ficarei assim algum tempo, mas sinto-me determinada a fazer mudanças. Os animais não merecem isto. Apenas desejava ter sabido mais cedo. E agradeço-vos por aceitarem a minha mensagem e a resposta amável. Sinto-me envergonhada pela minha atitude passada perante o veganismo. Sinto tanta vergonha, mas agora que vi o que vi suporto o veganismo a 100% e estou empenhada a combater a mentira que o termo “abate humano” esconde.

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Texto original

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