A fotografia sempre fez parte de mim. Desde pequena que me lembro de ver o meu Pai com uma máquina fotográfica a capturar momentos em família. Nas férias levava, assim como os meus irmãos, sempre a minha câmara fotográfica e, para grande tristeza minha, nunca recebi uma máquina fotográfica descartável.
Com o passar do tempo fui aprofundando a fotografia, até começar a fotografar a preto e branco, a preparar os meus filmes, assim como a revelar e passar horas na câmara escura a revelar os filmes e as fotografias no ampliador. Como sempre gostei de estar sozinha, hoje recordo estes momentos como a capacidade que tinha para passar tempo comigo. A minha Olympus andava sempre comigo e passava imenso tempo a fotografar. O que eu mais gostava e continuo a gostar na fotografia analógica é a curiosidade de ver o que fotografámos, sem a pressa e a repetição do digital e, até por vezes, a surpresa de ver algo inesperado a aparecer.

Quando optei pelo veganismo, uma das primeiras contradições que enfrentei foi ter que optar ou não pela fotografia. O uso de ingredientes de origem animal na fotografia analógica — as películas têm gelatina na sua composição e algumas formas tradicionais de impressão fotográfica utilizam albumina, uma proteína derivada da clara do ovo — fez com que optasse por parar de utilizar a fotografia analógica e começasse a optar pela fotografia digital. Foi estranho perceber que algo que sempre fez parte de mim também tinha esta dimensão, que até então desconhecia.
Dentro da fotografia digital comecei a explorar várias câmaras que me pudessem ajudar a sentir o prazer da fotografia, mas fotografar e ver de imediato, o silêncio da câmara escura, não são a mesma coisa, até que optei por parar completamente.
Mas fotografar sempre fez parte de mim, os retratos e os momentos, a fotografia. Há umas semanas encontrei alguns álbuns de família deitados no lixo e aquilo mexeu comigo de tal forma que me fez reviver a importância de fotografar, captar e manter viva a memória e foi nesse momento que inesperadamente recebi uma máquina nova que me fez sentir novamente vontade de fotografar e capturar tudo à minha volta.
Vou voltar à fotografia digital. Não é exactamente a fotografia que conheci e que aprendi a amar, mas talvez seja uma forma de continuar a fotografar sem ter de abdicar dos valores que hoje fazem parte de mim.

Já enviei imensos emails a fabricantes de película, na esperança de que um dia possam existir alternativas verdadeiramente vegan. Até lá, vou continuar a fotografar, a aprender e a guardar memórias, de uma forma diferente, mas com a mesma vontade de parar o tempo por um instante.
Porque, no fundo, talvez a fotografia nunca tenha sido apenas sobre a máquina, o filme ou a forma como revelamos uma imagem. Sempre foi sobre as pessoas, os momentos e aquilo que sentimos quando conseguimos guardar um pedaço da vida para mais tarde voltar a ele.